Sobre textos confusos...
Ou melhor: tentativa de escrever textos confusos
Eu havia me proposto a publicar um artigo por semana aqui nesse perfil. Acreditei que esse período me daria tempo de escrever com mais tranquilidade, refletindo melhor sobre cada escolha, lapidando, cortando.
A ideia do segundo texto estava fermentando há algum tempo, antes mesmo do primeiro. Gostaria de, com base na minha experiência com leituras da antropologia contemporânea e na minha vivência profissional como editora e revisora, discutir “textos confusos”. A expressão aparece num artigo de George E. Marcus no qual ele discute os efeitos da pós-modernidade sobre a antropologia. Deparar-se com a alteridade etnográfica, cuja diferença é radical, e “traduzir” esse encontro exigiria, talvez, novas formas de escrita: menos fechadas, mais recalcitrantes e titubeantes.
Fiz a primeira versão, reli e achei burocrática. Tudo parecia forçado, acadêmico demais, cheio de referências desnecessárias. Procurei, então, “desconstruir” o texto, reduzir as citações e menções a autoridades, retirar explicações. Ficou raso, superficial, sem sabor, sem tensão.
Em mais uma tentativa, procurei estetizar o desconforto. Improdutivamente, procurei descrevê-lo ali mesmo no texto, criando derivações, abrindo orações explicativas. Enumerei sentimentos, como o medo do fracasso, a excitação da forma, o gozo prematuro do resultado, a conformidade tardia com a incompletude. E o resultado foi patético.
Pensei: “A IA pode me ajudar a enxergar as fraquezas”. Contudo, o que ela apresentou foi artificial, fora do que eu queria, não servia, não respondia. E tudo o que eu desejava comunicar ficava cada vez mais distante.
Inútil lutar nessa hora. Esqueci a disciplina e a obrigação de publicar no “tempo programado”. Melhor habitar o incômodo. Ler de novo os textos que me inspiram e com os quais dialogo indiretamente. Deixar que eles “se deitem” com os meus e ver o que seria gestado num próximo encontro com essa outra de mim.
O tempo passou, e o artigo não ficou pronto. Outro, contudo, nasceu e foi publicado: Leitura, escrita.
Mais tempo e, agora, diante do papel em branco, tento mais uma vez escrever sobre textos confusos. Penso: desisto? Insisto? Aceito? O que são textos confusos, afinal?
Não seria justamente esse “desencontro” dentro de nós? Não seria esse texto que resiste, insiste, dá voltas e termina, assim?

